ATARÁXIA | Espaço Moinho
UNTITLED LIMBO, 1 – O Recebido
”The road to the Western Lands, is by definition the most dangerous road in the world, for it is a journey beyond Death, beyond the basic God standard of Fear and Danger. It is the most heavily guarded road in the world, for it gives access to the gift that supersedes all other gifts: Immortality. Every man starts the course. One in a million finishes.”
W. S. Burroughs, The Western Lands, 1987
“Todos querem ser donos do fim do mundo.”
Don DeLillo, Zero K, 2016
No fim da estrada encontra-se o Ocidente, que recebe a esperança nas suas barcas e que a transforma em corpos confinados a um contorno definido, numa tenda, indeterminadamente. O fim da Estrada mais perigosa do mundo, fim do bem-estar e início da imortalidade, da regeneração do espírito no corpo.
A primeira travessia até à estrada faz-se pelas terras e tempos sempre suspensos que conduzem ao cais. O nosso protagonista aguarda ser recebido na Terra dos Mortos, onde se diz poder viver para sempre.
O Recebido, ainda vazio, com um corpo próximo do símbolo da vida do Antigo Egito, ou com uma cabeça parecida com um anel de fumo, aguarda pela barca no cais. Nós ocupamos o lugar do barqueiro ou de um dos ocupantes da barca – podemos escolher o nosso lugar, pois somos donos do fumo.
Untitled Limbo são os lugares do tempo no cais. As pinturas de Leonardo Rito deixam-nos escolher o nosso lugar e o lugar vazio que vai ser ocupado por um contorno – o contorno ocupa o espaço que contorna. No fim da estrada para Ocidente, o espaço que o contorno ocupa é o que ocupamos – aprendemos a perceber o contorno ao contrário. O espaço negativo passou a ser apertado por esses corpos. Não queremos, mas o fim da estrada está cheio de mal-estar e sempre que recebemos mais um corpo, chegado na barca de milhões, a massa ocupada pelo espaço sobrante comprime-nos mais um pouco.
As pinturas de Untitled Limbo propõem significados possíveis para os estados da humanidade. Fogem da moldura, libertando o observador de constrangimentos.
As pinturas e a exposição organizam-se complementarmente, em dois espaços distintos mutuamente extrusores do seu suporte pictórico: papel e ecrã propõem um enquadramento, em que se substitui a moldura inexistente nos papéis pintados pelo espaço libertado (livre?) no ecrã, para vermos estas pinturas onde estivermos. Este enquadramento, gerado pelas circunstâncias da atualidade, reforça um tópos da pintura muito presente na obra de Leonardo Rito, a pintura de perspetiva religiosa, pintura de natureza narrativa policénica e com incontáveis pontos de fuga – negociados na duração do olhar do observador sobre a superfície pintada.
A exposição está montada fragmentariamente, por que o observador, no moinho, deve subir as escadas até ao segundo andar, percebendo e atribuindo significado ao tríptico central, sujeito ao atrito do corpo em esforço e às interrupções de inúmeras pequenas pinturas que concorrem para este espaço sem nome. O mesmo observador, agora impedido de ir ao moinho, conhece o tríptico como é: três pedaços de papel pintado, unidos por uma linha do horizonte integrando a cena do Recebido a aguardar no cais, num inesperado enquadramento, agora sujeito ao atrito da competição das simultaneidades no ecrã pela sua atenção.
- (Neste ponto do texto, refiro que a exposição Untitled Limbo foi inicialmente concebida para ser observada no espaço físico onde se encontra exposta.)
Estamos aqui para receber. No fim do Ocidente, em processo de “transformação digital”, para um novo velho plano: sem profundidade, com extensão e simultaneidade virtual. A ilusão em direto.
Felizmente para quem atravessa o lago e faz a estrada, a pintura, nestas condições, salva. A narrativa policénica assume semelhanças com a negligência visual: à (im)possibilidade de se ver tudo em simultâneo, sobrepõe-se a realidade de se conseguirem ver partes, numa ordem temporal determinada pelas circunstâncias competitivas da observação. Ilusão com corpo.
“Quando as pessoas pensam em fazer upload ou download das suas mentes para o meio da «cloud» de forma a se tornarem imortais, é preciso que saibam que essa aventura consistiria apenas na transferência de receitas, nada mais do que isso, para um computador. Se levarem a analogia até ao fim, notarão que jamais terão acesso aos paladares e aos aromas. Porquê? Porque lhes faltariam as cozinhas onde as mentes teriam de se dedicar a culinária a sério. Ou seja, porque lhes faltaria um lugar onde as receitas se pudessem concretizar.”
As tecnologias oferecem à humanidade possíveis vias alternativas para a eternidade, sem corpos. Ou com corpos arrefecidos numa rua de Los Angeles, em 2019, como no filme Blade Runner, ou num deserto sem lugar, como no livro Zero K; ou, como atualmente faz a Mind Emulation Foundation, uma companhia que desenvolve investigação na área de whole brain emulation, para que uma cópia digital da mente possa sobreviver ao corpo após a sua morte, com uma proposta de eternidade que ao eliminar o lugar do corpo, com as suas vísceras e contorno, termina o bem-estar como o entendemos: “Your biological body will fail you. But what makes you you is not your body. It’s your mind”. Uma versão digital da mente, sem corpo, sem contorno – uma mente sem espaço.
A pintura de Leonardo Rito, nesta série Untitled Limbo, avisa o Recebido de que, ao chegar ao Ocidente, os nossos corpos se desmembram, por que estamos no futuro, sempre acordados, sempre eficazes, sem presente, sem passado, sem cultura, – imortais.
Há alguns anos, a «sobrevivência» a outra crise da indústria cinematográfica ensaiou-se com a conservação de modelos digitais de alguns dos seus atores, que não deviam envelhecer ou morrer. A tecnologia CGI (Computer Generated Imagery), oferece a eternidade de qualquer aparência aos seus modelos, perpetuando uma imagem-para-sempre-a-mesma. Ou não, pois a tecnologia moveu-se e atualmente dispensa modelos. Estaremos prontos para receber aquele que quer regressar? A ficar sem corpo e em vias de não precisar da mente? – cópia digital, ou visceral/ contorno com o mundo?
O artista Ed Atkins compreendeu outros alcances desta tecnologia e utiliza-a para desmembrar ainda mais o corpo, deixando à vista a cumplicidade e impossibilidade de separar as vísceras e contorno, da mente. Nas suas instalações amplia o campo de ação da pintura narrativa policénica, recordando que o tempo é extensão, por que os abismos que nele se abrem têm sempre novos atores e novos espetadores para o perceberem e sentirem.
As pinturas de Untitled Limbo lembram-nos que a imortalidade é uma presunção humana que ignora a vida e que ainda só existe à boleia da arte.
Pensámos num subtítulo para esta exposição: Book of the Death for the Modern Life; sobre um possível encontro de ka com Modern Life is Rubbish, dos Blur, algures no mundo hoje.
“- E o que se passa com a duração da minha vida?
- Tu estás destinado a milhões e milhões de anos, uma duração de vida de milhões de anos. Mas eu, eu destruirei tudo o que criei; este país voltará ao estado de Nun, ao estado da inundação, como seu primeiro estado. Eu sou o que restará, com Osíris, quando me tiver transformado, de novo, em serpente, que os homens não possam conhecer, que os deuses não possam ver.”
João dos Santos,
Leiria, 24 de janeiro de 2021
PISO 1




PISO 2





PISO 3





Legenda para todas as pinturas:
Untitled Limbo, 2020 – acrilico sobre tela